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nós dois sozinhos no éter: o romance que eu confundi com um espelho

livro nós dois sozinhos no éter, da olivie blake, na minha mão

eu abri nós dois sozinhos no éter esperando um romance. fechei sentindo que tinha lido um pedaço de mim.

e vale dizer logo: nós dois sozinhos no éter não é fantasia, apesar de a olivie blake ser mais conhecida por isso. aqui não tem magia nenhuma pra salvar ninguém. são só duas pessoas reais, de cabeça bagunçada, tentando não estragar a única coisa boa que apareceu. e ainda assim tem magia, do jeito que importa.

deixa eu explicar. tem livro que a gente lê de fora, acompanhando a história de longe, torcendo pelos personagens como quem assiste. e tem livro que, na terceira página, já parou de ser sobre “eles” e virou sobre você. esse aqui, da olivie blake, foi o segundo tipo pra mim, e eu não estava nem um pouco preparado.

sobre o que é (sem spoiler feio)

a premissa é simples de resumir e difícil de explicar sem estragar. a regan e o aldo são duas pessoas que o mundo olharia e chamaria de “quebradas”. ela é formada em história da arte, guia de museu, intensa, imprevisível, arte pura em forma de gente. ele é doutorando e professor de matemática, metódico, obcecado por padrões (e por abelhas, o que eu achei o detalhe mais fofo do livro). ele é ordem, ela é caos. eles se conhecem por acaso e combinam seis encontros só pra tentar decifrar um ao outro.

esse não é um romance de comédia romântica leve. é um livro sobre arte, ciência, saúde mental e sobre a coisa mais assustadora do mundo: deixar alguém entrar.

e tem um detalhe que muda como a gente lê: a olivie blake, que na vida real se chama alexene farol follmuth, tem transtorno bipolar e colocou muito da própria experiência aqui dentro. não é palpite meu, ela conta nos agradecimentos. e dá pra sentir.

a mente da regan, e o que doeu em mim

aqui é onde eu preciso ser honesto com você, porque essa resenha não tem como ser imparcial.

eu sou bipolar. e a forma como a olivie blake escreve a cabeça da regan foi um ponto de identificação quase doloroso. ela não romantiza o caos, e isso é raro. ela descreve a exaustão de sentir tudo em excesso, o tempo todo, sem botão de desligar. e descreve também aquela certeza silenciosa que mora no fundo da gente: a de que, mais cedo ou mais tarde, você vai acabar queimando quem chegar perto demais.

ler isso foi estranho. foi bom e foi difícil ao mesmo tempo, sabe? porque é palpável. dá pra sentir na pele a dor de viver coisas muito parecidas com as que eu vivo.

o livro fala, com uma precisão cruel, sobre como é solitário viver dentro da própria mente. e como é apavorante deixar outra pessoa cruzar essa fronteira.

o livro aberto, no capítulo três

a regan e o aldo estão os dois nesse mesmo isolamento, cada um no seu éter, e eu me reconheci ali mais do que gostaria de admitir.

e o aldo? o silêncio do outro lado

se a regan é barulho, o aldo é silêncio. ele é matemático, metódico, vive dentro de teorias e padrões, e passa o livro obcecado por abelhas (o detalhe mais fofo e mais triste ao mesmo tempo). demorei pra sacar que a cabeça dele também é uma cela, só que mais quieta: ele racionaliza tudo pra não precisar sentir nada. e eu conheço esse truque de perto, o de transformar dor em teoria pra ela doer menos.

tem uma fala dele, lá na página 247, que eu li duas vezes:

“às vezes sinto que só estou esperando por algo que nunca vai acontecer.”
— aldo

é a coisa mais genérica e mais específica do mundo ao mesmo tempo. genérica porque acho que quase todo mundo já sentiu isso um dia. específica porque, pra quem vive com a cabeça pesada, não é um pensamento passageiro, é o chão. o aldo põe em palavras aquele existir por esforço, o de acordar e ter que se convencer a levantar. talvez seja por isso que a colisão dos dois funcione tanto: não é opostos que se atraem, é duas pessoas escondidas de formas diferentes, se reconhecendo.

afinal, vale a pena ler nós dois sozinhos no éter?

vale, e muito. mas com um aviso honesto: não é uma leitura leve pra qualquer momento. se você está num dia muito frágil, talvez não seja a hora, porque ele mexe fundo. agora, se você gosta de romance adulto que trata saúde mental com verdade em vez de enfeite, se você já se sentiu difícil de amar, ou se você convive com alguém que sente o mundo em excesso, esse livro vai te encontrar.

o livro se vende como “uma história sobre amar por inteiro, mesmo estando aos pedaços”. eu sei que tem gente que discorda dessa ideia, que acha que é romantizar o que deveria ser tratado. eu entendo o ponto. mas, pra mim, que vivo aos pedaços em muitos dias, ler alguém dizendo que dá pra ser amado inteiro mesmo assim não foi romantização. foi alívio.

alguns links deste post são de afiliado; só indico o que eu uso e leio de verdade.

nós dois sozinhos no éter · olivie blake nós dois sozinhos no éter · olivie blake o romance que me fez sentir menos sozinho na própria cabeça. um dos que eu mais guardo com carinho. ver na amazon →

e não, eu não vou contar como termina. só vou dizer que é um livro sobre a permissão. permissão de ser amado e de amar, mesmo quando a gente tem certeza absoluta de que é um desastre ambulante.

no fim, foi isso que ficou comigo: é difícil achar alguém que sintonize na nossa frequência, alguém que entenda o nosso ruído. mas existem conexões que valem o risco. e talvez a coragem não seja parar de ser intenso, e sim deixar alguém ficar mesmo assim.

ainda na dúvida?

sobre o que é nós dois sozinhos no éter?

é a história de aldo e regan, dois desconhecidos que combinam seis encontros pra se decifrar. na superfície é romance adulto, mas o coração do livro é saúde mental, solidão e o medo de deixar alguém entrar.

é romance ou fantasia?

é romance adulto contemporâneo, não fantasia. a olivie blake é famosa pela série a sociedade dos atlas, mas aqui não tem magia nenhuma, são duas pessoas reais e suas cabeças bagunçadas.

quem escreveu o livro?

a olivie blake, pseudônimo de alexene farol follmuth, a mesma autora da série a sociedade dos atlas. ela tem transtorno bipolar e escreveu muito a partir da própria experiência.

quem são o aldo e a regan?

o aldo é doutorando e professor de matemática, fechado e obcecado por padrões e abelhas. a regan é formada em história da arte, guia de museu, intensa e caótica. ele é ordem, ela é caos.

preciso ter lido a sociedade dos atlas antes?

não. é uma história totalmente independente, sem ligação com a série. dá pra começar por aqui tranquilo.

o livro fala sobre saúde mental?

sim, e sem romantizar a dor. a cabeça da regan é escrita com uma honestidade que me pegou em cheio, e eu falo disso na resenha porque também sou bipolar.

é uma leitura pesada?

tem peso emocional, sim, não é leitura leve de praia. se você está num dia frágil talvez não seja a hora, mas se topar sentir junto, vale muito.

tem final feliz?

sem spoiler: é um final honesto, do tipo que combina com a história. não vou dizer mais que isso.

se quiser ver tudo que eu já li com nota, o resto está aqui na minha estante.

(nota do cantinho: se você também procura histórias que falam de saúde mental sem romantizar a dor, eu vou reunir as minhas favoritas numa lista aqui em breve. fica de olho.)

escrito por xuhlis

escrevo sobre livros, animes, doramas, tudo que eu consumo, saúde mental e a arte de romantizar o simples. apaixonado por leitura, amante de chá e pai de 8 gatos em são paulo.

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