memórias póstumas, do jão: o disco de luto que eu ouvi um ano depois de perder meu pai

abertura
eu ouvi memórias póstumas, o álbum novo do jão, sozinho, deitado na cama do meu quarto, com o meu diário do ano passado aberto do lado. estava esperando o álbum sair e me deu vontade de ler um pouquinho. eu tava relendo umas páginas de 2025, aquelas que eu escrevi nos primeiros meses depois que meu pai se foi, quando o disco começou a tocar. e em algum ponto eu parei de escutar um álbum sobre o luto do jão e comecei a escutar o meu.
é disso que essa resenha é. ela não tem como ser imparcial, e eu nem vou tentar.
que álbum é memórias póstumas
depois da era super, toda fantástica e grandiosa, o jão fez o contrário: memórias póstumas é pequeno, íntimo, cor de verde-oliva e terra. o título é um aceno pro machado de assis, claro, direto de memórias póstumas de brás cubas. no livro, é um narrador defunto que resolve contar a própria história depois de morto, sabe? e isso faz todo o sentido com o disco. ele nasce de uma perda concreta, a do pai do jão, mas ele fez música pra não perder junto o amor que sentia.
aqui vai a primeira coisa que eu preciso dizer, porque acho que muita resenha vai escorregar nela: memórias póstumas não é só “o álbum do pai que morreu”. boa parte das faixas é, na superfície, sobre um amor que acabou. o luto do pai é a moldura, a lente. o que o jão faz é usar a morte pra falar de toda ausência, de todo mundo que passa pela gente e vai embora deixando marca. e talvez seja por isso que ele me acerta de tantos cantos ao mesmo tempo.
tem um detalhe que eu não esperava e que me pegou: o disco não vive só no fone. o jão montou um site inteiro, com um quarto que você acende e apaga a luminária, um caderno que vira página por página, e no meio das letras aparecem fotos antigas, de aniversário, de família. você tá lendo o verso e de repente tem uma foto ali, no ponto exato. o álbum não é só pra ouvir, é pra visitar. isso é extremamente lindo.
catedral e o amor: o que me incomodou (e a virada)
vou começar pela minha implicância, porque honestidade é o que eu tenho pra oferecer aqui. eu esperava um disco de luto que fosse triste até nas batidas. e catedral, a faixa que abre tudo, e o amor vêm com uma pegada animada, quase solar, que me deixou meio desgostoso da primeira vez que ouvi. eu queria melancolia e veio quase festa.
só que aí eu entendi a jogada. catedral é uma música alegre sobre o dia mais pesado que existe, o pai indo embora no mesmo instante banal em que a cidade acorda e faz pão e tem gente nascendo. e lá na frente, em literatura, o jão diz em voz alta o que catedral já estava fazendo escondido: a arte serve pra pegar a dor e virar outra coisa. então a batida alegre não é descuido, é a transformação acontecendo na sua frente, um enterro virando hino de propósito. eu precisei ouvir mais umas vezes pra sacar isso, e quando saquei, a faixa que mais me incomodou virou a que melhor resume o álbum.
não que tenha me convencido inteiro o tempo todo, mas teve uma que me ganhou pela batida mesmo: passeios noturnos tem uma batida muito gostosa de ouvir do começo ao fim. sempre volto também é meio triste e meio animada, jabuticabeira tem essa leveza, e teve hora que eu ainda queria mais peso. mas entendi que o disco escolheu não chorar o tempo todo. e isso é uma escolha, não um erro.
as faixas que me acharam
literatura foi a que mais me pegou pela melodia, é bonita de doer. e tem um momento nela, o de negar e reescrever, que me jogou direto no começo do meu luto, naquele lugar em que eu ficava me perguntando o que eu poderia ter feito diferente. aquela vontade teimosa de reescrever o final. a faixa fala exatamente disso, de mudar a história com palavra, de manter na página quem a vida levou.
mas a que mais me emocionou foi tudo me lembra. esses dias eu tava indo pro trabalho de manhãzinha, andando sozinho na rua, no frio, e do nada me veio a vida inteira com ele. tem um verso ali sobre fingir que não sabe, porque assim se dorme melhor, e é isso que a gente faz no luto: vai empurrando a dor pro canto, porque remoer o tempo todo machuca.
tem beijo de novela, e eu lembrei de assistir novela com meu pai e minha mãe quando era criança, só pra me sentir mais perto deles. tem os gatos sem raça. e me voltou aquela sensação dos primeiros dias, quando tudo que eu olhava me lembrava dele e vinha um choro que não dava pra segurar. é a minha favorita do disco.
jabuticabeira também me pega no contrapé com essa pegada mais animada, mas a letra é das melhores. é um narrador se despedindo sem medo, pedindo pra alguém regar as plantas dele, dizendo que não vai morrer, só viajar. e tem a herança ali, o “temos os mesmos olhos”, o pedido pra você plantar a sua árvore quando tiver um filho. é o morto seguindo nos traços de quem fica, e conversa direto com uma coisa que eu escrevo muito no meu diário: o medo de esquecer, e a vontade de honrar.
e tem joão. essa eu não sei explicar direito. tem o meu nome no título, e o verso em que ele confessa que só sabe amar mal, chamando a pessoa pelo meu nome, me pegou de um jeito que eu ainda não consegui traduzir. acho que tem música que a gente não resenha. a gente só sente, sabe?
e aí veio memórias póstumas, a faixa que fecha o disco, e foi um soco no estômago. ela é narrada por alguém que já se foi, que passa todo dia pela casa de quem ficou e não acha graça em mais nada no mundo dos vivos. tem um trecho sobre a última coisa que se vê dali serem os olhos de alguém, e cara, é como se fosse escrita pelo próprio falecido mesmo. eu não sei se foi por isso que ela me destruiu ou se é porque diz exatamente como eu me sinto. essa música me puxou direto pra imagem da escada lá de casa. a escada que eu vi meu pai subir pela última vez com dor no coração pra ir pro hospital. todos os dias eu olho pra ela e é dele que eu lembro, inevitável. quando o jão canta sobre essa última visão, é a cena dessa escada que me vem.

meu pai, e o mesmo ano
eu perdi meu pai ano passado, mais ou menos na mesma época em que o jão perdeu o dele. os dois lutos, o mesmo ano. talvez seja por isso que esse disco não me soa como um lançamento, e sim como alguém lendo o meu diário em voz alta.
o que eu mais sinto falta são as coisas pequenas. eu lembro dele me levando no carro ouvindo nx zero, na época do fundamental. lembro da voz dele quando eu chamava ele pra ver um dos gatos fazendo alguma bobeira. e sinto falta dele me buscando de noite, quando eu chegava cansado do trabalho ou da faculdade. é isso que memórias póstumas entende e quase ninguém entende: a saudade não mora no grande, mora no comum, no cheiro de pão de um dia qualquer.
e é aqui que o ângulo do disco virou o meu também. as pessoas que passam pela gente deixam marca, mesmo quando vão embora. elas plantam coisa na gente que não sai. meu pai plantou. e talvez doer ainda seja, de um jeito meio torto, uma forma de manter ele por perto.
vale a pena? e pra quem
vale muito. memórias póstumas é o jão mais nu que eu já ouvi, e é um disco corajoso: ele escolheu transformar a perda em algo bonito sem nunca fingir que a perda não existe. o meu único senão sincero é que em alguns momentos eu queria mais peso na batida, porque meu ouvido pedia a mesma tristeza que a letra já tinha. mas isso é gosto meu, não defeito dele.
se você tá de luto, um aviso de quem também tá: ouça com carinho, e talvez não num dia muito frágil, porque ele mexe fundo. agora, se você perdeu alguém e tá procurando companhia pra essa saudade, ou se você só quer entender como a arte segura o que a vida leva, esse disco vai te encontrar.
fecho
no fim, foi isso que ficou comigo: a gente não para de amar quem perdeu, e talvez nem deva. o jão fez um álbum pra guardar o pai dele nas palavras. eu, ouvi ele de diário aberto, guardando o meu do meu jeito. e saí com uma certeza meio esquisita e meio boa: enquanto a gente lembra, ninguém foi embora de vez.
faq
de que fala memórias póstumas?
memórias póstumas é o 5º álbum do jão, um disco íntimo sobre luto e memória, nascido da perda do pai dele. na superfície muitas faixas falam de um amor que acabou, mas o fio é a ausência e o que resta de quem se vai.
o álbum novo do jão é sobre o pai dele?
em parte, sim. o luto do pai é o coração e a moldura de memórias póstumas, explícito em faixas como catedral e a faixa-título, mas o disco fala de perda em sentido mais amplo.
quantas faixas tem?
são 14 faixas, de catedral a memórias póstumas, com uma pegada mais orgânica e melancólica que a era super.
qual a melhor faixa?
gosto é gosto, mas pra mim tudo me lembra é a que mais emociona, e literatura é a mais bonita de melodia. catedral é a que mais cresce quando você ouve mais vezes.
memórias póstumas é um álbum triste?
tem peso, mas não é só choro: memórias póstumas escolhe transformar a dor em algo bonito, e várias faixas soam quase solares por cima de letras pesadas.
o que significa memórias póstumas?
o nome vem do machado de assis, do “memórias póstumas de brás cubas”, um livro narrado por um defunto. no álbum do jão, o significado é esse: alguém olhando pra trás e guardando nas palavras o amor de quem já se foi. memórias que sobrevivem à morte.